Quinta do pitaco: A compra do fórum AtariAge pela Atari.


Nos últimos tempos, a Atari voltou à discussão dos fóruns de retrogaming e retrocomputacionais, por alguns movimentos que a empresa realizou.  Todo mundo lembra dos Atari Flashback, em suas inúmeras versões, e que geraram uma certa sensação de nostalgia em várias pessoas. No Brasil, a Tectoy é a representante para este segmento. Depois, houve um primeiro movimento, que foi o Atari VCS. Sua campanha de financiamento coletivo no IndieGoGo atingiu incríveis US$ 3 milhões de dólares, bancados por mais de 11 mil pessoas. Bateu a meta do Spectrum Next, inclusive. O equipamento, convenhamos, é meio estranho: A nossa memória nos evoca o icônico Atari 2600, que completou meio século de vida recentemente. Mas esse VCS… Ele é o quê, afinal? Videogame novo? Central multimídia pra sala (ah, isso é tão anos 1990…)? Um objeto de decoração? O que é esse VCS, alguém explica?

Depois teve o Atari 50: The Anniversary Celebration – e não passou em branco aqui no Retrópolis, com uma não resenha feita pelo Cesar Cardoso. O resultado foi bem positivo. O último movimento foi o lançamento do Atari 2600+, que já tinha sido anunciado em agosto de 2023, mas mesmo assim despertou o interesse de alguns concidadãos retropolitanos (saída HDMI e suporte a Atari 7800 também, groovy!). Mas a gente quer falar é do movimento anterior e o mais surpreendente de 2023, que ocorreu em setembro: A aquisição do fórum AtariAge pela Atari.

No dia 7 de setembro de 2023, a Atari anunciou que estava adquirindo o fórum AtariAge. Para quem não conhece, o AtariAge é um fórum e comunidade online muito popular entre os entusiastas da Atari, iniciado em 2001. Eu mesmo me lembro de quando ia na AtariAge pra baixar um arquivo-texto com os videogames e micros que eles tinham pra vender, e via Atari Jaguar novo, na caixa, sendo anunciado… Impressionante como havia gente disposta a comprar um Atari Jaguar, mas eu divago. A AtariAge é muito conhecida por isso, e pela venda de cartuchos homebrew de Atari 2600, 5200, 7800 e para os computadores Atari.

O que diz a AtariAge?

Eu fui ler a declaração do Albert Yarusso, o admin da AtariAge, que está nesse link aqui. Seguem alguns dos parágrafos e meus comentários:

(…) eu passei a trabalhar a tempo inteiro na Atari. Isto não será uma surpresa para alguns de vocês, dada a especulação que vi no último mês.

Eu já vi isso acontecer antes em empresas adquiridas: O proprietário da empresa acaba se tornando funcionário da empresa maior, mas depois de um tempo, acaba caindo fora. Já vi isso acontecer em empresas de tecnologia, em instituições de ensino, em vários segmentos. Isso pode ser minimizado se o proprietário da empresa menor se torna sócio da empresa maior. É só pagar com ações, e aí ele também tem interesse em fazer o negócio maior prosperar, porque se não der certo, ele também perde dinheiro. Vi isso ocorrer recentemente, numa empresa onde já trabalhei. Continuando…

A primeira coisa que gostaria de dizer é que esta não foi uma decisão que tomei de ânimo leve! Se me perguntassem há 20 anos se eu teria pensado em trabalhar para a Atari (e muito menos em vender a AtariAge à Atari), eu teria dito que não. Mas avançando para o presente, esta é a primeira versão da Atari que vejo desde os anos 1980 que dá muitos passos positivos para restaurar a magia que todos associamos à empresa original (…).

Bem… É um movimento surpreendente, convenhamos. E eu concordo (em parte) que a Atari de agora tem feito movimentos significativos em uma direção que agrada aos entusiastas, e não um movimento browniano com ares de caos, deixando os entusiastas entre entediados e indiferentes, salvo muito poucos que se fecham na bolha e se interessam por qualquer coisa que seja produzido, sem questionar. Sim, Nishi, eu falei de você.

A Atari agora leva a sério a sua propriedade intelectual relacionada com o retro e está criando uma vasta gama de hardware e software com base nessa propriedade intelectual, ao mesmo tempo que cria novos conteúdos originais. É muito empolgante ver a Atari lançar o 2600+, um novo 2600 que aceita cartuchos reais e, sem revelar nada em concreto, isto é apenas o início do que vamos ver da Atari no futuro. A Atari, pela primeira vez em muitos anos, está a visar e a abraçar entusiastas como nós, ao mesmo tempo que fabrica produtos que apelam àqueles que cresceram com a Atari e têm uma nostalgia da marca, mas não estão mergulhados em jogos retro como nós.

Vale lembrar que esta Atari não é a a mesma Atari que foi pioneira com o Pong, nem é a mesma empresa que lançou o Jaguar (e o Atari ST) na década de 1990. Essa Atari é descendente da Infogrames, a produtora francesa do tatu, que detém a maior parte da propriedade intelectual e das marcas registradas originais da Atari, incluindo nome e logotipo. Em 2009, a Infogrames virou Atari. Aliás, eles também detém propriedades intelectuais da Accolade, da Gremlin Graphics Interactive e da Ocean Software. E, nos tempos áureos, produziu jogos para algumas plataformas retro – eu me lembro de Passageiros do Vento, para MSX 2, e La Herancia, para MSX 1.

Não adianta ficar só com os fãs, porque senão morre com os fãs. Eu sempre falo, com bom humor, que “o fã é aquela pessoa que mais odeia um conteúdo“. Porque a maior parte dos fãs (não todos) tem a empáfia, a arrogância de que aquele conteúdo, equipamento ou item é seu, e que ele conhece melhor aquele ente do que ninguém. Por isso é que pode ter certeza, a Atari vai sofrer com muitos haters que dirão que o Atari 2600+ não é Atari, dando as desculpas mais estapafúrdias como justificativa. Algo como a história do MSX Turbo-R ser um compatível por não ter porta de cassete. E é claro que os meus Omega tem porta de cassete

E aí, vem o que causou pânico entre alguns entusiastas… Entre eles, um certo vereador (quase terceira idade) de Retrópolis:

Estou muito entusiasmado por trabalhar para a Atari e, com os recursos da Atari, poderei fazer melhorias significativas na AtariAge ao longo do tempo. Isto também abre muitas novas oportunidades para os programadores homebrew, onde os jogos originais criados pela comunidade incrivelmente talentosa da AtariAge terão um público muito mais vasto.

A dúvida que paira sobre todos é: o que acontecerá com a comunidade homebrew. Será que a Atari vai perseguir quem faz jogos para seus videogames, como certa empresa cujo nome começa com N? É uma dúvida válida, visto que muitas empresas não sabem lidar com as comunidades que se formam em torno dos seus equipamentos ditos vintage:

  1. Ou eles ignoram completamente e fazem de acordo com a sua cabeça (MSX Licensing Corporation);
  2. Ou não existe mais para perturbar (Commodore), apesar de vez por outra um defunto se levanta da tumba;
  3. Ou deixa alguns itens no site e fingem que não se importam (Apple).

Mas eu acho que a presença do Albert na empresa e toda a negociação na qual ele travou,  dá uma certa segurança. Continuemos:

O meu papel na Atari será multifacetado, mas as minhas principais tarefas, especialmente no início, serão gerir o fórum AtariAge como tenho feito nas últimas duas décadas. Isto inclui a gestão dos fóruns e da AtariAge Store. A longo prazo, terei mais tempo para atualizar significativamente a base de dados de jogos, algo que já queria fazer há algum tempo, mas para o qual simplesmente não tinha largura de banda. E vou mudar a loja no início do novo ano para uma nova plataforma de comércio eletrônico, algo que já queria fazer há algum tempo.

E aí temos mais alguns parágrafos onde o Albert fala do que ele queria fazer na AtariAge e não conseguiu, devido à falta de tempo, dinheiro, etc. Ele comenta que o diálogo começou no início de 2022, foi indo devagar, mas progrediu e chegaram a um acordo que ficou bom para ambas as partes. Ele ainda diz que na prática inicialmente, nada muda, tanto que na Portland Retro Gaming Expo (em outubro), foram lançados cerca de 20 jogos com o selo da AtariAge. Ele ainda fala de todas as demandas que o site gerava, e da proximidade do ponto de ruptura que ele chegou:

(…)Trabalhar com a Atari era uma das várias soluções possíveis para trazer alguma sanidade à minha vida. Outras possibilidades incluíam encerrar o site e largar de mão, encerrar a loja e deixar o fórum e a base de dados de jogos, ou uma combinação das anteriores. Ou podia simplesmente ter vendido o site a uma entidade qualquer, fosse a Atari ou outra empresa ou indivíduo, sem qualquer envolvimento da minha parte.

Bem, temos que entender o lado do cara. A gente, aqui no Retrópolis, já tem um bocado de estresse, e a gente é bem menor… Imagina a AtariAge! Antes de jogarem pedras, dá um desconto, vai.

Como mencionei acima, isso abre alguns novos caminhos para os autores homebrew. Por exemplo, a Atari está interessada em trazer mais conteúdo para a sua plataforma VCS, e alguns autores homebrew já tem trabalhado com a Atari para vender os seus jogos no VCS (como o Amoeba Jump e o Tower of Rubble). E esses acordos não afetam a Loja AtariAge. Continuo a planejar oferecer downloads digitais na loja assim que a mudar para um novo software, o que será o meu foco principal assim que terminar várias outras tarefas importantes.

Bem, isso poderá ser interessante, se der certo. Não sabemos se dará. Mas a existência do Atari 2600+ mostra que a Atari está bem mais simpática ao homebrew. Afinal, se ela faz o videogame (com saída HDMI, que é um fato consumado da indústria), não interessa se as pessoas o usarão como calço de porta, apoio de churrasqueira ou jogarão nele: Ela continuará a vender videogames, e o que mais importa para as empresas é terem software para seu hardware. Estão aí todos os kits de desenvolvimento de software (SDK) que não me deixam mentir. Ah, e eles estão vendendo joysticks CX40. Novos. Que obedecem à mesma pinagem dos CX40 “canônicos”. Você pode comprar um joystick desses e colocar no seu Atari quarentão, ou em outro micro que tenha uma porta compatível. Isto, na minha terra, mostra respeito com o legado – por mais que aquele joystick com botão do lado esquerdo seja um problema para canhotos, como eu. Mas divago. Continuando…

Existe também a possibilidade dos jogos homebrew originais serem lançados em formato físico sob a marca Atari, se tiverem um bom desempenho na AtariAge Store. Com o novo Atari 2600+, a Atari está certamente interessada em conteúdos originais e atraentes para aumentar essa plataforma e, claro, a linha XP também continuará. E prevejo muitas outras possibilidades interessantes ao longo do tempo. Sinto que isto beneficiará muito a comunidade homebrew, os autores homebrew e todos os que gostam de ver novos jogos para o Atari 2600 e outros sistemas clássicos.

Bem, aqui vemos que ele está realmente empolgado com as possibilidades. Se a Atari realmente apóia e abraça o homebrew, há uma boa chance do povo não comprar Atari apenas para jogar Adventure, Berzerk e Enduro, mas jogar jogos novos, como por exemplo Alien Holocaust II: Invasion Earth, da Bitnamic (propaganda gratuita pros amigos, hehehe).

No final do texto, ele agradece à comunidade homebrew, ao apoio de todos e abre um Perguntas e Respostas a respeito desse processo todo. Praticamente uma FAQ, e uma thread gigante de posts. Divirta-se lendo… Ou não.

E o outro lado?

O CEO da Atari, Wade Rosen, disse para o site Gamesindustry.biz: “Durante 25 anos, a comunidade AtariAge documentou jogos da Atari e forneceu um fórum valioso para uma grande e apaixonada comunidade de fãs de jogos retro, colecionadores e criadores de [jogos] homebrew. Ao trazer o [site] AtariAge para a família Atari, podemos garantir que este importante recurso recebe o apoio de que necessita para continuar a cumprir a sua missão nos próximos anos.

Parece que a assessoria de imprensa fez bem o seu trabalho.

E os usuários?

Vários elogiaram a iniciativa, mas um membro do fórum, de nome “Raiu”, reclamou: “Isso não me agrada. A melhor parte do Atari Age para mim é que ele é (ou era, eu acho) um site de fãs independente, administrado por fãs para fãs, sem interferência corporativa. Quero dizer, você diz que não haverá mudanças, mas já houve mudanças – as ROMs sumiram do guia de raridade.

Bem… Isso é complicado porque os jogos ainda tem proprietários. Acho que alguns aqui lembram de quando a Konami resolveu apertar os calos do Konamito, exigindo que informações dos seus jogos para MSX não estivessem disponíveis para download no seu site. Eu não sei se a Activision (hoje parte da Microsoft) vai deixar o pessoal copiar legalmente os Pitfall, River Raid e Keystone Kapers (e olha que o Garry Kitchen fez uma continuação)… Se a Microsoft até hoje não liberou gratuitamente as BIOS do MSX (C-BIOS está aí que não nos deixa mentir), quanto mais as produtoras de jogos.

E além do mais, sempre existirá o TOSEC e outras coletâneas de jogos para download.

O que eu acho disso tudo?

Eu acho o movimento interessante, mas sou cauteloso: Vamos ver onde isso vai dar. É óbvio que o Albert está empolgado com todas as possibilidades. Isto dá um refresco para ele, que fazia isso tudo por amor à arte e agora tem um pouco mais de apoio corporativo. Se já dá um baita trabalho fazer tudo o que fazemos aqui no Retrópolis, imagina em um site (bem) maior.

Por outro lado, tem gente reclamando que a empresa está requentando sua propriedade intelectual pra fazer uma grana. Bem… Qual é o mal nisso? Uma empresa vive de lucro, e esta é uma propriedade intelectual dela. Eu não vejo problemas. Meu problema é a empresa pisar na cabeça dos outros por conta disso.

É claro que as incertezas sobre como serão tratados os produtores de jogos homebrew são grandes. Mas eu acho que a Atari tem só a ganhar se apoiar o homebrew, e espero que eles peguem essa visão.

Mas eu queria saber se a animação e a empolgação do Albert continua da mesma forma agora, ao longo de 2024… Alguém aí tem bola de cristal? E eu queria saber do que mais importa para nós: E os Atari 8 bits? E o Atari ST? Como ficam? São dúvidas que permanecem. A conferir.

Sobre Ricardo Pinheiro

Ricardo Jurczyk Pinheiro é uma das mentes em baixa resolução que compõem o Governo de Retrópolis. Editor do podcast, rabiscador não profissional e usuário apaixonado, fiel e monogâmico do mais mágico dos microcomputadores, o Eme Esse Xis.

Um comentário em “Quinta do pitaco: A compra do fórum AtariAge pela Atari.

Os comentários estão fechados.